“Promising Young Woman” acompanha Cassandra (Carey Mulligan), uma jovem que tenta se vingar de homens abusadores e estupradores.

O filme chegará aos cinemas brasileiros em março.

Vingança em um mundo criado

“Promising Young Woman” se desenvolve em meio a um mundo absurdo, irreal, colorido, onde músicas famosas são reinventadas e que serve como uma criação psicológica da própria protagonista para desempenhar sua vingança. Pouco sabemos sobre o passado de Cassandra e o que a motivou para começar o seu plano em desenvolvimento (nada vou revelar aqui sobre, já que esse é um daqueles filmes que quanto menos você souber antes de assisti-lo, melhor).

Dessa forma, somos apresentados a um universo altamente controlado e descontrolado ao mesmo, uma espécie de conto de fadas cruel. Cassandra, na melhor interpretação da carreira de Mulligan, controla esse jogo, apesar de ser vista pelos outros como alguém que perdeu o rumo de sua vida. O passado a atormenta, o futuro é sua saída. A obstinação por esse jogo arriscado prova que aquela é a única possibilidade que ela enxerga para a sua vida, aqui em uma relação clara com a vida real, em que pessoas com grandes traumas e marcadas por algum tipo de abuso físico ou psicológico serão sempre afetadas por esses eventos, a ponto, muitas vezes, de não conseguir dar sequência a sua vida.

Entretanto, Emerald Fennell, que estreia na direção e também assina o roteiro, não escolhe o caminho fácil e óbvio para contar esse tipo de história, quase sempre retratado de forma dramática nos cinemas. É quase como se ela pegasse elementos da sátira, da fantasia do drama, do thriller e do terror, batesse no liquidificador e tivesse “Promising Young Woman” como resultado. E, pelo incrível que pareça, todos esses gêneros diferentes acabam funcionando bem no mesmo filme.

Critica Promising Young Woman 2

Isso porque Fennell não confunde sátira com descaso ao tratar o abuso e constrói o seu mundo fantasioso apenas como um escudo da protagonista, que apesar de forte e obstinada, se mostra indefesa ao recordar de seu passado e do evento que motiva sua vingança. É nesses momentos que o longa conscientemente perde a cor exagerada e aposta no drama mais pessoal, dando um quê mais realista para o sofrimento da personagem.

É justamente isso que permite ao longa tratar o tema de forma literal, com personagens masculinos falando o que pensam e se mostrando ameaçados quando finalmente percebem que podem ser pegos pelos atos que cometeram. Não pelo sistema é claro, já que aos olhos da opinião pública e da justiça eles são mais inocentes do que a vítima “que estava bêbada”. Eles só podem ser pegos por aquela pessoa que não tem mais nada a perder, que já subverteu a própria realidade em um mundo ilusório como refúgio e motivação para continuar a viver.

Fennell acerta também ao não criar uma unificação sobre a figura masculina. Claro que a maioria é formada por escrotos que em nada se arrependeram e usam o escudo “eu era uma criança” para justificar seus atos criminosos. Só que há também uma possível redenção, quase como um fio de esperança, representado por Alfred Molina, alguém preso em um quarto escuro lutando contra os seus próprios demônios, essa é a sua autopenitencia. Ao mesmo tempo, o roteiro não isenta personagens femininas no processo, retratando como, seja por falta de interesse ou por pura maldade, algumas ajudam o sistema a se estabelecer e só reconhecem o problema quando são afetadas pelo medo de viver aquilo.

Outra escolha bastante interessante do roteiro é justamente colocar Nina como uma santidade intocável. Não à toa, ela vive apenas nas lembranças, nem sequer é mostrada, o que valoriza sua aura quase sobrenatural e purificada, já que é assim vista pela protagonista. É uma pena que as boas ideias não se mantenham até o final do filme, e o roteiro apele para uma reviravolta mirabolante e sem o impacto desejada, tirando um pouco da força da obra em seus últimos minutos.

Portanto, “Promising Young Woman” surge como o filme mais original da temporada de festivais e premiações. Nada melhor do que ver uma diretora sendo reconhecida por apostar no diferente e cravar o seu lugar em Hollywood por um bom tempo. E, se houver alguma justiça no Oscar, Carey Mulligan será indicada.

Nota: 7.5

Assista ao trailer:

Ficha Técnica:

Título original: Promising Young Woman
Data de lançamento: Sem data
Direção: Emerald Fennell
Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie
Gêneros: Sátira, drama
Nacionalidade: EUA